Abril 21, 2009

Ao fim do campo


...........................................................para a Celina

Outro amanhecer branco. Assim tem sido por todo o início do outono: a terra com aura, em paz. Mas eu acordara antes, às 3 da madrugada, com os guinchos dos morcegos envenenados agonizando no sótão de duas águas da casa. Liguei a televisão para não ouví-los e nem os longos planos-sequência no deserto de David Lean me devolveram o sono. Às 6 horas, Negro aos pés da cama levantou, entreabriu a porta com o focinho, circulou pela casa e voltou com Oso, Piti e Pelusa resfolegando para sair. Os levei ao pátio na frente da casa onde não correm o risco de topar com algum rato procurando seu lugar aberto para morrer. Os ratos estão pelo jardim, nos fundos. Já os morcegos ficam no forro, esbatendo contra as telhas francesas, enjaulados pelo sol.

Mueren allá arriba, pero no se preocupe, que el martes vengo para limpiar el altillo. —Me disse ontem, o dedetizador—.

Cevo meu mate na biblioteca, sentindo na presença da morte ao fundo da casa e acima de mim uma extensão da minha própria. E se evito pensar na agonia dos morcegos é pela mesma razão que evito qualquer pensamento sobre a minha morte: para não torná-la mais real do que ela já é. Reponho na estante o livro de Lawrence que o filme me levara folhear e cato a pilha de jornais paulistas trazidos por minha mãe uma vez por semana. Procuro alguma resenha sobre poesia capaz de mudar meu estado de espírito, mas elas simplesmente foram banidas dos suplementos culturais. Má poesia, imagino. Pelo celular recebo uma mensagem de texto do capataz. Pede tinta para marcar as ovelhas que não foram vendidas, curabicheira líquida e ivermetina para o gado. Sinto sono e volto para a cama. Kuka me acorda às 10 da manhã com café, frutas e pão recém trazido do forno da Ripan. Radiante, me sussurra:

— Marília llamó ayer de noche, dice que espera un hijo.

No te puedo creer, deveras?

Tu madre está em alas y quiere acompañarte hoy a campaña.

Telefono para Nova Iorque, falo com minha irmã que me chama de bruxo, e depois ao Rio e converso com o futuro pai. Na verdade foi o Cigano quem leu, numa tirada de búzios meses atrás, que uma criança estava a caminho — do teu sangue, abençoada —disse ele— mostrando as grossas veias do braço sobre o prato de palha trançada.
Visto a bombacha de verão, uma camisa leve e vou pela sombra para a veterinária da esquina coçando a barba de três dias. Compro 1200 doses de vacina contra a raiva conservadas numa caixa de isopor com gelo. Por sorte meus morcegos domésticos se alimentam de frutos e insetos, não fosse tanto excremento acumulando no forro nossa convivência seria pacífica. Já os da Coxilha Negra são hematófagos. Vou vacinar até os cavalos. Levo também uma antena para a TV a bateria, botas de couro para o Gustavo e o curabicheira. Volto para almoçar e Gracielita conserva a boa nova no ar da casa. Santiago me diz que a dinda do Juan Thomaz está esperando um bebê. Juan dando pulinhos e apertando os punhos acha que é menina. Ao sair, recomendo que os cães devem seguir dentro de casa, especialmente Oso (Esse filhote de ovelheiro, que Juan ganhou de aniversário do Santosmauro, persegue tudo que se move no pátio, de beija-flor a fila de formiga). Escondo a caixa de isopor com a anti-rábica brasileira atrás das duas garrafas de gás, da antena e dos meus arreios emalados (não tem aduaneiro que goste do cheiro que o pelego deixa nas mãos), compro uma bolsa de bolachas secas na padaria e passo pela casa da minha mãe. Uma das vantagens de ter este jipe aqui na fronteira é não esperar na fila da barreira alfandegária. Os fiscais o reconhecem de longe e me fazem passar sem revisar o que contrabandeio para a estância do Uruguai. Mesmo assim, só descanso no volante depois das Curticeiras. É ali que a viagem à La Rosada começa para mim.

— Quero que me leves para ver nos fundos do campo o mato daquele precipício. —Diz minha mãe, apontando o contorno onde mal se adivinha os morros de La Rosada no horizonte.

— Eu descarrego esta tralha na estância, reviso o gado no banho e vamos até o potreiro do 5, onde se vê todo este vale de cima, a perder de vista. Depois te levo às lagoas de pedra no meio do mato.

Passando por uma clareira no pinheiral da reflorestação — de troncos tão uniformes que parecem artificiais—, a mãe me mostra a vala onde ela caiu com seu carro procurando abrigo na tormenta do Carnaval. Março teve chuva. A seca que assolou o Uruguai e a Argentina durante todo o verão terminou. Da estrada, pela janela, talvez pela velocidade, a impressão que tenho é que o verde do campo reverbera.

— Se te sentas hoje no banco do umbu dá para ouvir o pasto crescer.— digo.

— Não conheço quem ouça pasto. E menos ainda com tanta cigarra cantando.

— Bello faria exercícios de atenção com ele. Claro que com as cigarras não dá. Adoro o outono da fronteira. O céu branco. É quando os greens do campo de golfe estão no ponto para patear.

— Tua irmã está uma pilha.

— Imagino. De quanto será a gestação?

— Só duas semanas, menino. Parou com a pílula e engravidou.

—Então foi justo antes de ir visitar a Xanda. Onde mesmo é que a Marília passou o Carnaval?

— Devon. O marido da Célia tem um estúdio lá. Vende suas gravuras para toda a Inglaterra. São daquele tipo distribuído para a Harrods, e ele ganhou dinheiro de uma hora para outra, comprou uma Ferrari, imagina. E depois teve síndrome do pânico.

— Um dos melhores golfistas do Brasil parou de jogar por causa do pânico. Mas superou. Joguei com ele no dia de treino do Aberto para profissionais do ano passado.

— O Marcelo também. Tinha taquicardia, precisou medicar a pressão arterial e fazer tratamento durante uns três anos.

— Mas achei ele bem, no lançamento do meu livro.

— Sim, menino, agora ele está bem.

— Ele parou de tocar piano enquanto estava doente?

— Não, prosseguiu com seus concertos e as aulas na Universidade. Gravou, inclusive.

Nós já havíamos deixado para trás a ruta 5, que cruza o país de Rivera até Montevidéu, e girado à noroeste rumo à Artigas e Quaraí. Eu dirigia agora pela 30, uma sinuosa estrada vicinal de asfalto estreita demais para caminhões em sentido contrário. A paisagem de encostas arenosas e casas de barro onde se cultivava melancia, adquiriu por conta da reflorestação um falso ar canadense, fechada pelo bosque e sem distâncias. Um dos impactos dessa mudança no ecossistema local foi a proliferação de morcegos e a epidemia de raiva nos animais da região —sem falar no aumento das cobras e das rotas de escape do gado roubado—. Outro foi o boom dos preços dos até então desvalorizados campos de areia, pobres para a pecuária, mas os mais indicados para o plantio predatório dessas espécies de crescimento rápido da indústria madeireira. (O predatório vai por conta de quem teme a desertificação depois que o ciclo dos plantios esgotar o solo.) Mas como há males que também vem para bem, graças as oscilações de um mercado em alta, pudemos vender por bom dinheiro a valorizada Los Moros, no remoto Rio Negro, e comprar a ainda barata La Rosada, de maior área e ao lado do Posto Branco, unificando as duas estâncias da família. Assim voltei para o horizonte da fronteira onde eu crescera.

Alcançamos o topo da subida da Pena, 80 metros acima do vale reflorestado, dando goles em seco para destapar os ouvidos. Dar com a vastidão do pampa sempre faz com eu me sinta em casa.

— Vou parar ali em Masoller e levantar umas notas na veterinária do Machado. Tenho que comprar a ivermetina aqui. — Lhe digo.

— Porque não compraste na cidade?

—Por boa vizinhança. Assim quando preciso de algo com urgência na estância, ele manda o filho do velho Luzardo levar.

— Aquele que atirava pedras em quem passava de motocicleta na curva do marco?

— Este é o menor. Aquele enlouqueceu.

15 quilometros depois da Pena, duas ruazinhas de vivendas populares, a escola, o mercado da Dona Irene e o posto de gasolina formam o que se conhece por Masoller. Uma cruz de madeira no meio de um terreno deserto marcava, antes do partido Blanco mandar construir um obelisco, o lugar onde balearam o revolucionário Aparício Saravia, há mais de cem anos. O povoado do lado brasileiro é parecido. Três ruas de casas populares, dois bolichos e O Gato Verde, o prostíbulo. Não há escola, nem caudilhos. A veterinária é uma peça de tábuas com piso de chão batido onde o Machado empilha caixas e frascos ao redor de uma salamandra apagada. Levanto as notas e a ivermetina. Ao manobrar para ir embora, não vejo o pilar de sinalização do telefone público encoberto pelo pasto alto. O baque da coluna de cimento contra o pára-choque fez com que Machado e um gaúcho que pagava a sua conta saíssem.

—Não fui eu quem botou esse toco aí, tchê. Reclama lá na telefônica dos castelhanos. — diz Machado, divertido, enquanto eu desamasso a placa no pára-choque dianteiro.

— Agora ninguém mais vai bater nele. —Aceno, dando ré para longe do escombro.

Minha mãe foca o gaúcho todo pilchado —lenço branco, bota e bombacha com chapéu de aba larga— enquanto boleia a perna na motocicleta com a caixa de compras apoiada sobre o tanque de gasolina, mas não tira a fotografia.

— Esperavas que estivesse a cavalo?

— Ele sobe na moto como se fosse um cavalo. Mas deixa que se mantenha na frente. Eu quero fotografar no corredor, contra a cerca de pedra, quando ele passar o marco da linha divisória que está dentro do Posto Branco.

Sabia o lugar a que ela se referia, com a barragem do arroz ao fundo entre as ilhas de eucaliptos.

—Buenas.— Gritei ao passar. —Desculpe a poeira!

— Dá-lhe no más que ninguém se afoga em terra.

Ela tira a foto justo antes que a nuvem de terra o engolfasse. Na encruzilhada desviamos do caminho para o Posto Branco e tomamos o corredor da direita.

—Ficou bem, parece que ele vem saindo da onda de pó. Diz ela, olhando a foto na pantalha da máquina.

— Pegou a barragem lá embaixo?

—Sim, o rebrilho do sol na água também.

— Terminei a leitura dos teus originais. –Digo à minha mãe.

—E que te pareceu?

— Gostei do título "Campo Sem-fim", só não entendi o hífen.

— Serve de nome e também de adjetivo.

Eu olho o campo sem fim que nos rodeia e me agrada ainda mais a sua escolha.

— Comparado a "dos Cadernos de Clara C.", "Campo Sem-fim" é maduro. Mais sutil. Tem uma voz feminina atemporal. Talvez não haja um resgate assim na literatura riograndense, sabes, mãe?
.
— Tu achas é? Obrigada.


— Mesmo sendo fragmentado não deixa de ser compacto. E a mulher que narra está tão bem indefinida, que poderia ser qualquer mulher daquela época. Faz "Anaí das Missões" parecer homem.


— Em qual época te pareceu estarem ambientados?


Bueno, aí é que é. Uma das sutilezas dos minicontos é que eles abarcam um longo passado. Pode estar em qualquer ponto da nossa formação. Quando escreves sobre as crianças e mulheres vagando, deixadas para trás pelos nômades, situas os personagens numa paisagem anterior aos campos demarcados, quando cada estância neste pampa era uma fortaleza. A própria casa de La Rosada é um forte, já notaste?

— Ela é antiga sim, acho que da metade do século XIX.

—Teu livro desperta —faz uso, na verdade— o meu imaginário de infância. Aquele de quando vínhamos para o Posto Branco sem ter a noção de onde terminava a vastidão, como se na estância entrássemos não só num espaço sem outra geografia, mas também sem tempo, sem história. Por isso tem força. É capaz de usar o que está em nós, este cenário comum a todos, sem sequer descrevê-lo. Acho que a tua arte está aí.

A mãe escuta o que lhe digo sobre seu segundo livro, pensativa.

—A gente nunca sabe em que vai dar o que tentamos escrever.

— É, mas quando é nosso, é nosso.

Chegamos aos moirões de pedra do aramado de La Rosada. Abro o cadeado da porteira, ao lado do marco divisório e passamos do Brasil para o Uruguai.

— Logo depois do temporal do carnaval, eu saí na zaininha para recorrer este potreiro. Ainda estava bem armado e se via as cortinas de chuva surgindo e sumindo longe na planície. Era dessas tardes em que o sol atravessa as nuvens e deixa barras de luz sobre o campo enquanto a manga d’água te pega —como me pegou— só para molhar os pelegos.


— Uma tarde de casamento da raposa, como dizia a tua avó.

— Mas o que eu nunca tinha visto depois de um chaparrão era tanta formiga voadora. Eu era obrigado a manter o vento nas costas, tal o enxame que me rodeava, atraído pelo calor do cavalo. Grudavam no pescoço molhado da zaina, na lente dos meus óculos e quando eu apeei para abrir a porteira senti o peso do capuz da capa. Tirei aos punhados as formigas vivas com as asas coladas umas nas outras.

— O calor do sol ou a chuva deve ativar o relógio biológico das formigas. —Diz a mãe.

— E os rasantes das andorinhas sobre nós, fazendo oitos no ar e se banqueteando no formigueiro alado... Alguém da cidade que me visse de longe ia dizer que aquele gaúcho encanta bando de passarinho. Bonito mesmo ficava contra o sol.


—Eu posso imaginar... Não vejo gado neste campo.

— Gustavo está banhando contra o carrapato. Olha lá, a mancha escura à direita do moinho. Ele está trabalhando com as vacas de cria na mangueira das casas.

— Sim.

— É aqui que os alemães vão construir as turbinas eólicas. Mediram o vento de toda a região e escolheram esta zona, não só por ser alta, mas parece que as gargantas dos penhascos tem a ver com a frequência das rajadas.

— Energia limpa. Tomara que comecem logo. Imagina só o gado pastando embaixo daquelas hélices enormes.


— A mim dão a impressão de relógios de vento, girando lentamente.


— Pêndulos, não é?


—Isso, como pêndulos, cada um num tempo próprio. Me pergunto o som que devem fazer. Tomara que sejam silenciosos.


Chegamos na invernada do Moinho Novo. Pequenos louva-a-deus do pasto saltam nas minhas bombachas enquanto abro a porteira. Eram verdes, mas com a seca viraram cor de palha. Agora vão esverdear de novo, pensei. A sanga voltou a correr com força, rodopiando nas pedras redondas e fazendo musgo nas margens. Atravessamos sobre o piso que restou da antiga ponte de pedra. Tracionei as quatro rodas para galgar a encosta da coxilha, mais por precaução que pelo risco de atolar no campo macio. Subindo, o céu contra a curva da coxilha ficou ainda mais branco, como uma zona de ar diferente. Uma vez lá em cima, a sede da estância caiada de rosa surgiu ladeada pelo velho umbu, entre os três cinamomos centenários.

— Vendeste as ovelhas, não é?

— Obrigado pela estiagem. Mas com as borregas que ficaram vou fazer um plantel de Corriedale. Estou pensando em inseminar com algum carneiro dos bons. É uma boa forma de recomeçar, assim, em pequeno número, mas de qualidade.

— Dá para trazer algum do Posto Branco, fala com teu irmão. Olha, quantos tahans naquele banhado... E os gansos cinzentos que ficaram aqui quando compramos a estância?

— Nem me fala... O Santosmauro comeu quase todos. E me mentia dizendo que eram caçados pelos zorros. Estes tahans andam sempre em par. Aqui são seis casais. Só vão embora quando o banhado seca.

— Já foi tarde, esse nosso capataz de Paso de los Toros.

—Te contei que ele abandonou mulher e três filhas por essa guria?

—Que guria, meu filho?

— A filha daquele gordo que era o encarregado aqui. Tem doze anos.

— Mas por uma criança...

— Nem tão criança, Santosmauro disse que aos onze ela fugiu de casa com um pastor de igreja de garagem, que tinha um Corcel II amarelo, e só voltou quando ameaçaram prender o padreco.

— Que crime! E por onde anda agora o Santosmauro?

— O Carlitos arrumou uma capatazia para ele em Tacuarembó e no terceiro dia de trabalho ele foi embora da estância porque descobriu que ela ia ao baile sozinha, em Tranqueras, no fim de semana. É bem como o dito: um fio de pentelho puxa mais que uma junta de bois. Deve estar fazendo uns trocos no que ele mais gosta, negociando cavalo redomão para as gineteadas. A estância mudou com o Gustavo. Está tudo muito limpo e organizado. Vamos ver como ele trabalha o banho dos animais.

Revisamos o gado de cria já banhado nas mangueiras e acompanhamos o lote que faltava. A mãe observou o mergulho das vacas no tanque cheio de água tratada com carrapaticida, como nadaram por ele e subiram os degraus até a pequena mangueira circular onde o excesso escorre pelos ralos de volta para o banho. Depois contamos as cabeças, fazendo com que passassem em fila ao correr da cerca. Apartei duas vacas com o olho branco, para operá-las, e três terneiros com bicheira no umbigo, para curá-los com o Bertac que eu trazia. Com a tarde já alta, seguimos ao fim do campo. Passamos pela manada de pôneis mandados por meu irmão para combater os espinhentos cardos e caraguatás que proliferam entre as pedras do platô da Pena. Uma potrilhinha recém nascida, menor que uma ovelha, mamava na mãe de igual pelagem tubiana, marrom e branca. Anotei na caderneta: vermífugo para cavalos, marcar potrilhos, capar machinhos. Pensei em convidar Carlitos Casadei para fazer todo o serviço na próxima minguante, inclusive a operação das vacas cancerosas que ficaram com os terneiros abichados no piquete de azevém.

— Tenho saudade do Carlitos. Vou trazê-lo para apalpar a prenhês das vacas, aproveito e repasso com ele a cavalhada.


— Uma pena teu veterinário ter ficado tão longe.


— Quando acumula o serviço como agora dá para fazer com que ele venha por dois ou três dias. E hoje a casa já dá pra ser habitada. Só falta a luz. Mas com os faroletes a querosene se resolve, enquanto não instalamos as placas solares.


Chegamos na borda do penhasco diante do vale por onde viajamos. A vegetação abaixo é fechada, com palmeiras nascidas nas reentrâncias da pedra vertical dos dois lados das encostas, entre as anacauítas, as aroeiras e as moitas de coronilhas, onde os urubus fazem ninhos.

— Sente a marcela? —pergunto rodeado pelo aroma doce que se despreende do roce das calças nas ervas rasteiras.

— A capa do meu livro vai ser de cartão de marcela... bem perfumada. Olha está toda em flor, entre a chirca. É a época dela.

— Quantos exemplares vais tirar?

— Vai ser todo feito a mão, artesanal mesmo. Não sei ainda, uns 200, 250.

Caminhamos um pouco mais em silêncio, olhando para o chão, eu pensando nas cruzeiras e corais venenosas que se aquecem nestas pedras.

—Lembra dos travesseiros de marcela? —ela indaga— Estou sempre adiando ir conversar com os jujeiros que ficam nos camelôs do Parque Internacional, para aprender sobre as ervas medicinais daqui. Nós não temos nem idéia da riqueza desta vegetação que todo estancieiro considera sujeira do campo.

—Para o estancieiro tudo o que o gado não come é sujeira do campo. Olha aqui, mãe, — indico, dando as costas para o vale e abrindo a macega com a mão. —Olha o trevo nascendo na sombra da carqueja. No inverno ele engorda mais o gado que a pastagem artificial de cornichão e azevém. Este campo é ideal contra o frio, porque a encosta protege do minuano e estas macegas aquecem os terneiros novos. É por isso que não tenho nenhum animal aqui agora. Estou deixando empastar para quando gear.

Voltamos ao jipe estacionado na sombra de um quebracho colorado, única árvore em todo o chapadão do potreiro. As cigarras calaram com a nossa chegada e pude ouvir o zunido dos marimbondos.

— Tem um enxame enorme aí, mãe, cuidado. Espera do outro lado que eu te pego ali.

— Tá. Vou colher um pouco de marcela.

Dei a partida, me afastei da árvore e apaguei o motor. Enquanto esperava, as cigarras recomeçaram com mais força. A estridência acelerou a passagem das nuvens sobre o capô do jipe fazendo com que as milhares partículas de pólem contra o sol parecessem paradas no ar mesmo com a brisa constante. A mãe voltou com um ramalhete de marcela. Rumei ao norte e antes da sede da estância girei para o oeste. Tínhamos ainda hora e meia de claridade. A chapada está entre dois precipícios com córregos rasos que se tornam torrentes quando chove. Em vista aérea, essas gargantas têm a forma de uma forquilha. Voltávamos do Rubio Grande e íamos ao Rubio Chico. Na borda do penhasco sobre o Rubio Chico a parede do morro em frente é mais alta que o horizonte onde o sol caía e, embora seja profunda igual, não é tão íngreme. De modo que é possível descer a pé pela encosta, tomando cuidado com o cascalho solto, até as piscinas naturais de rocha branca que minha mãe queria conhecer. Mato adentro, passamos pelos restos de uma vaca morta há meses que não fôra coreada pelo Santosmauro, e calamos para não contaminar o passeio com o desleixo do capataz demitido. Atravessamos a mesma sanga três vezes, em ziguezague, pisando nas pedras que estavam acima da tona até chegar a um poço profundo, sem lambaris nas margens e sem movimento algum que pudesse fazer pensar em peixes maiores na água verde. O cheiro novo de outro bicho morto vinha da mata do penhasco. Dois urubus planavam em círculos sobre ela. Me aproximei da borda do abismo e vi de cima as asas abertas, o lustre passando pelas costas das aves a cada vez que se inclinavam para o lado do poente. Na margem do poço, marcando a entrada de uma gruta, outro quebracho colorado. A umidade das últimas chuvas escorria em filetes pela parede da gruta, dando à rocha na sombra reflexos da claridade do céu. Essa luz, por sua vez refletia na piscina, como num espelho descascado.

— Já entraste aí? —Ela indaga.
.
—Pra entrar nessa cova só a nado. Mas que nome terá esta trepadeira nos galhos do quebracho, mãe?

— Parecem vestidinhos dependurados de cada galho.

— É... olha... se encolhem. Soltam perfume quando são tocadas.


Voltamos subindo até um quilometro adiante de onde havíamos estacionado, eu ainda cheirando nos dedos a trepadeira. Chegamos na estância com sede e pedi ao peão que colhesse um limão e o levasse com água gelada para a mãe, enquanto eu determinava a lida do resto da semana com o Gustavo na varanda do galpão. Anoitecia ao deixarmos La Rosada e, como os troncos retos do pinheiral, também o poente tinha algo fake, principalmente nos instantes em que o sol sumira e os vagalumes surgiram quase todos juntos cravejando o alaranjado technicolor de um céu de pôster. Até passarmos Masoller contamos mais de dez lebres ofuscadas pelos faróis acesos. Era noite fechada descendo a Pena. A mãe dormitava e eu senti nos olhos pesados a noite passada em claro. De vez em quando, um vagalume iluminado batia no parabrisa me fazendo pensar que era a sua vida partindo na luz que lentamente se apagava. Como demorava em morrer, espatifado no vidro, sumindo contra o céu estrelado. Pensei nos morcegos, nos ratos e no gado, me dizendo que o correto diante da morte é sentir em toda a vida a extensão da minha própria. Lembrei de uma antiga propaganda da Unesco onde se dizia que nós não possuímos nada, só tomamos emprestado dos nossos filhos. Não lembrava de ter passado com minha mãe uma tarde tão tranquila. Quando cheguei em casa, Gracielita e as crianças já dormiam. Jantei e fiz um pequeno passeio pela calçada com os cachorros. Depois caí na cama. Sonhei que era noite e eu voltava, pela ruta 30, de La Rosada. Estava sozinho, cansado e dormia no volante. No meu sonho, por duas ou três vezes eu adormecia, mas acordava antes da curva e evitava o acidente.

3 comentários:

Juva Batella disse...

Há muito tempo eu não entrava tanto num texto, num campo, numa atmosfera. Teu texto está forte e claro, e ele permite que sintamos o quanto ainda existe lá dentro, reservado a uma segunda ou terceira leitura. Parabéns, tchê.
Juva

Anônimo disse...

Um texto maravilhoso. Parabéns é pouco, passas um sentir narrativo digno de um J.M. Coetzee e culmina grandiosamente:o correto diante da morte é sentir em toda a vida a extensão da minha própria.
Recomendações a Dna. Celina,
com um abraço do conterrâneo
Paulo de Tarso Cademartori

Anônimo disse...

Thomaz, que sorte que o Google me permitiu ler-te, depois de tantos anos. Estou em Itaipava, e por alguma razão, neste friozinho pra carioca (que nem te faria cócegas)me ocorreu teclar teu nome (com a certeza de que não haveria homônimo...). Concordo com o Juva (que aliás foi bom ver por aqui também, não sabia que se conheciam). Teu texto me fez viajar pelos teus pampas, teus bichos, tua gente. E de quebra li as poesias novas (para mim), ainda melhores, mais intensas, e trabalhadas como já eram desde sempre. Bom te ler falando de Gracielita e dos filhos. Foi um grande prazer, maior mesmo que a saudade que me deu dos anos juvenis. Beijo grande, Marcelo Trindade.