Junho 11, 2009

Éluard no Papaléguas



O primeiro verso de Éluard que eu li cortou minha respiração. Nessa época, eu só me interessava por poesia e era leitor de poucos poemas de contados poetas. Mesmo o poema escolhido rara vez permanecia inteiro na minha mente. Ele era apagado pelo clarão daquele verso único que me capturava. Tendo experimentado a força dessa experiência lendo, estava determinado a repetí-la também escrevendo. Eu vivia atrás do insight. O espreitava através das leituras, mas muito mais cultivando a comoção e afinando a sensibilidade expressiva. Meu propósito era firme o suficiente para impedir que eu vagasse sem foco pelo mundo novo do Rio de Janeiro. Não nutria interesse algum pelos poetas. Ler o que se escrevera sobre eles e sobre as suas obras seria, para mim, cometer uma espécie de sacrilégio. Para quê dissecar a estrutura de um poema, contextualizá-lo na vida do seu autor e na galeria da língua, dar-lhe um ismo artístico, se o que importa já está ali, nele mesmo? Havia, percebo hoje, na minha rejeição à narrativa como gênero e à história linear, com H maiúsculo, uma idealização do presente. E talvez fosse por conta dessa impossibilidade de entender o mundo através apenas do raciocínio que eu me afastara da formação convencional. Abominava a crítica literária (e os cursos de Letras e Direito que, apesar das faltas, eu terminaria). O que eu cortejava sem saber era certo grau de anonimato que diluísse o autor na sua voz e o tornasse menos importante que o seu poema. Mais tarde, a convivência com poetas renomados, muito mais altos que seus livros, me confirmaria o valor dessa intuição. Meu idealismo não abria exceções. A única forma de integrar o íntimo cânone das minhas leituras era assim, através de uma centelha. Curiosamente, os versos de Paul Éluard que eu li num dos stands do Papaléguas estavam citados em um ensaio e não havia na tradução portuguesa do livro dos dois catedráticos franceses sobre o Surrealismo o poema na sua íntegra. Eu manuseava os ensaios nas livrarias pela riqueza das citações. O subsolo da PUC, embaixo dos pilotis da Faculdade de Direito, onde o Papaléguas vendia seus livros e revistas era escuro e acolhedor. O lugar perfeito para a solidão que eu sentia, com falta de inverno, albina no trópico. À direita de quem descesse as escadas para o refeitório comunitário havia um balcão de bar e bancos dispostos como os de trem ao fundo, contra as paredes sem janelas. As estantes verticais giratórias ficavam entre as mesas cobertas pelos livros à venda ao lado do balcão. Aquele buraco era meu lugar de leitura. Esvaziava durante cada período de aula e quando lotava de repente a interrupção era bem-vinda porque trazia os amigos e as amigas de passagem até o começo da aula seguinte. Eu não frequentava a envidraçada e asséptica Biblioteca do terceiro andar. Lá, as pessoas liam obrigadas, entravam e saíam com pressa e tratavam os livros como utensílios para chegar ao fim do semestre. Aqui, na penumbra, as pessoas matavam o tempo. Um tempo sólido de ar viciado que demorava mais, como o da praia. Os livros do Papaléguas eram objetos valiosos que ele cedia com generosidade para quem o frequentasse. A consequência do seu despreendimento era o respeito por esses livros. Eles eram bem cuidados e sempre repostos à sua posição de venda nas estantes ou nas mesas. O lugar rescendia a vinho, a cerveja derramada e, senão a maconha, a maconheiros vindos do pebolim. O verso de Éluard, uma estrofe na verdade, fez com que eu comprasse o livro sobre Surrealismo e subisse ao terceiro andar procurar o poema original nas suas Obras Completas. Retirei da Biblioteca o volume da Pléiade, em papel bíblia, sem folheá-lo e tentei voltar ao meu canto no fundo do bar, mas o bar estava lotado. Saí da universidade para a luz da tarde, sentindo na minha bolsa de pano o peso dos livros não lidos imantado por esse tipo de expectativa que se tem quando esperamos uma revelação. Mas, para a minha surpresa, a estrofe em francês não chega aos pés da tradução da Sra. Eugénia Maria Madeira Aguiar e Silva. Nem versão alguma que eu viesse a conhecer jamais chegou, fosse do Zé Paulo, do Octávio Paz (que se permitiu abolir justo os dois versos que me impressionaram da sua tradução ao espanhol), do Quasímodo ou do Beckett. Diz a estrofe final do poema sem título que faz parte da coletânea Facile, de 1935:

Femme tu mets au monde un corps toujours pareil
Le tien

Tu es la ressemblance


e traduz a portuguesa:

Mulher tu dás à luz um corpo sempre semelhante
O teu

Tu és a semelhança


Éluard (e a tradutora com o seu "dar à luz" a despertar ainda agora tanta ternura pela nossa Língua Portuguesa) recria a natureza feminina numa imagem de mulher que se renova nela mesma diante do leitor. E o que mais ocorre quando olhamos fascinados para a mesma pessoa, senão a impressão de estarmos a olhar novamente pela primeira vez? Foi ler a um só tempo o movimento e o princípo de tudo que me cortou a respiração. Eu vinha de descrições estáticas, vinha de: Puedo escribir los versos más tristes esta noche. Eu vinha de isto como aquilo: Cultivar o deserto como um pomar às avessas ... y sus muslos me escapaban como peces sorprendidos*. Aquela alquimia verbal, a palavra criando algo que até então não existe, mas que é real, agindo sobre o presente imediato do leitor em vez de remetê-lo ao tempo em que foi escrita, era nova para mim. E por não ser retórico, esse poema se ajustava ao meu errático ritmo de leitura: salteado, caçando iluminações. Eu me senti confirmado. Alguém já escreveu como eu, sem saber, pretendia. A questão que se colocaria mais tarde ainda não me angustiava. Como fazer diferente?
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*Neruda, Cabral e Lorca, respectivamente.

3 comentários:

paulo de tarso cademartori disse...

Concessa maxima venia, Poeta, peço bis!

Juva Batella disse...

Tão preciso esse texto. E ainda me deu de presente umas pinceladas dos pilotis da PUC - ou melhor, da sua lembrança dos pilotis da PUC.
Juva

Ze Otavio disse...

Caríssimo poeta.
Estou até hoje esperando, pelo correio, o livro que ficaste de me enviar. Chegou não. Lendo seu "Éluard no Papaléguas", deu saudade do Rio dos nossos tempos.
Devo estar em Santana do Livramente no mês de janeiro. Vais estar por aí? Me passa seu telefone (nogueira@unb.br).
Só um detalhe, completamente exotérico ao que é principal em seu texto: por que a tradutora "pareil" e "ressemblance" pela mesma "semelhança"?
Dê notícia.

Abração,
Zé Otávio